Cacareco
(Hernane Freitas)
Ouvia essa palavra e sempre achei
engraçada; agora parece que ninguém fala mais, não tem sentido algum, mas me
veio à cabeça e resolvi escrever alguma coisa. São tantas coisas que ninguém
faz mais que foram deixadas para trás e que fazem todo o sentido... Novos
dialetos e novas palavras sem significado algum passaram a fazer parte do
vocabulário das pessoas do século XXI que nem mesmo elas entendem o que estão
falando. Falam por ouvir todo mundo pronunciando, mas nem sabem o significado e
nem onde colocá-las corretamente.
As redes sociais vieram para nos
ajudar a compreender a fragilidade humana escondida. Começamos a expor o que
nós temos de menos importante em nossa existência e parece fazer muito sucesso;
não vejo sentido algum em muitas coisas. O respeito era uma palavra que estava
sempre presente entre nós, hoje parece que ninguém pratica e, quando se fala
nela, usam as leis para justificar a falta de educação e a falta de elegância,
que é outra coisa que parece não existir mais — foi trocada por ostentação, que
não tem significado nenhum. Os pedacinhos da humanidade estão cacarecando por
aí e não estamos conseguindo ajuntar. Ninguém lê mais uma boa história e mesmo
não se tem uma prosa boa com os vizinhos nas calçadas. Que pena que o mundo se
coisificou demais e as pessoas não têm mais tempo para as pequenas alegrias da
vida.
Quem sabe o que é escalafobética? Tem
gente que nem consegue pronunciar tal palavra, mas tem significado e é muito
elegante para denominar algo fora do comum, esquisito, extravagante,
estrambótico, desengonçado ou desajeitado. Vixe, muitos leram e nem saberão
quanta elegância essas palavras carregam em seu significado. Extravagante hoje
é quando pessoas mostram seu carro novo, suas joias caras, mas o verdadeiro
sentido era uma pessoa feliz que sorria muito alto, fugia dos padrões comuns
ditados pela sociedade com um estilo chamativo e que quase sempre estava
cercada de outras pessoas felizes, sem interesse de ser chique ou de buscar
alguma oportunidade de ascensão profissional.
Você já pagou mico na sua
vida? Nossa, quantos micos eu paguei nessa minha curta longa vida! A moçada da
atualidade não paga mico, eles micam o tempo todo e nem percebem. Começam nas
roupas e terminam nas repetições de palavras sem sentido, que nem mesmo eles
sabem o que estão pronunciando. Todos nós temos uma caixinha nas mãos que
carrega os nossos segredos, nossas aventuras e até as finanças, e que necessita
de antenas para funcionar. Agora, o que é mais incrível é que ninguém está
antenado. Até outro dia estávamos antenados em tudo o que acontecia; as
informações eram passadas rapidamente de boca a boca e faziam a diversão da
moçada. Hoje ficou tudo muito sem graça, são tantas informações que nem dá
tempo de comentar; quando comentamos, outro já publicou algo mais interessante
e tudo se torna sem graça. Meu Deus, existiam tantas coisas supimpas, coisas
tão maravilhosas, de boa qualidade... Estamos tão superficiais que não tem mais
nada supimpa nessa vida. Tudo virou papo furado, conversas sem futuro,
enrolação, e sai do nada para lugar nenhum. Tudo passa rápido demais, igual a
pum, que cada um faz o seu escondido e ninguém quer ser o dono do feito quando
está em público.
Credo, como a humanidade evoluiu! "Six Seven" (6-7)
virou uma gíria do ano 2026; será que para o ano de 2027 será “Eight Nine"
(8-9)? Até as gírias antigamente eram mais criativas. Será que dá para trazer
de volta o “Chuchu beleza” — algo que estava tranquilo, perfeito, excelente?
Penso que não, faz falta. Nossa, esqueci do cacareco, que é um substantivo
masculino que significa coisa velha, sem valor, estragada ou um objeto caseiro
de pouca utilidade (tranqueira, quinquilharia, trem velho). Geralmente, a palavra
é usada no plural (cacarecos) para se referir a um amontoado de móveis velhos
ou utensílios domésticos desgastados pelo tempo. Tranqueira, badulaque,
quinquilharia, bagulho, treco, massa, joia, irado, brother, xavecar, caiu a
ficha, tomou Doril, pindaíba... chega, né?
